Nascido em Nijmegen, moldado pela Gâmbia, Índia e Brasil. Da engenharia mecânica a smart grids, identidade digital e Passaportes Digitais de Produto — a história de por que fundei a Regen Studio e por que apenas sustentabilidade não é mais suficiente.

Nasci em Nijmegen, a cidade mais antiga dos Países Baixos. Cresci lá, joguei hóquei de campo no mais alto nível nacional juvenil, e acabei partindo para a Delft University of Technology — um dos programas de engenharia mais rigorosos do país. Se alguém tivesse me dito naquela época que eu acabaria fundando um estúdio de inovação regenerativa operando tanto nos Países Baixos quanto no Brasil, eu não teria acreditado.

A Base do Engenheiro

Minha graduação em Engenharia Mecânica me ensinou a pensar em sistemas — dinâmica não-linear, mecânica dos fluidos, engenharia de sistemas, mecatrônica. Meu projeto final focou em testar diferentes designs de brocas utilizadas em cirurgias de quadril. Era rigoroso, desafiador e profundamente técnico. Mas eu estava inquieto. Queria entender o mundo além das equações.

Gâmbia — Onde Tudo Mudou

Uma formação complementar em Empreendedorismo Internacional e Desenvolvimento me levou à Gâmbia por três meses. Estávamos construindo um secador solar para conservação de frutas e legumes em aldeias rurais — um desafio prático de engenharia. Mas o que me marcou não foi a tecnologia. Foi a percepção de que o acesso à energia sustentável é a chave para tantos dos nossos problemas ambientais e sociais.

Famílias não conseguiam refrigerar alimentos. Escolas não tinham eletricidade após o anoitecer. Clínicas não conseguiam alimentar equipamentos médicos básicos. A tecnologia para resolver esses problemas já existia. O que faltava eram as condições sistêmicas para fazê-la funcionar — os modelos econômicos, os marcos institucionais, o engajamento da comunidade.

Índia — Inovação Responsável

Essa percepção moldou meu mestrado. Escolhi Tecnologia de Energia Sustentável na TU Delft, mas fui atraído pelo lado humano da transição energética. Para minha pesquisa de graduação, fui à Índia estudar como sistemas energéticos rurais poderiam ser projetados de forma mais responsável — não apenas tecnicamente, mas social e institucionalmente.

Me formei com a tese Responsible Innovation Systems for the Rural Energy Sector in India, avaliada com nota 8,5. O trabalho também resultou em um artigo publicado, Co-creating Responsible Energy Systems, apresentado na 2018 International Conference and Exhibition on Smart Grids and Smart Cities.

O insight central era simples, mas profundo: a maior parte da tecnologia que precisamos já existe. São nossos sistemas sociais e institucionais que não mudam rápido o suficiente. Isso se tornou o fio condutor de tudo que fiz desde então.

Energy Bazaar — Construindo o Futuro Cedo Demais

Recém-saído da universidade, cofundei a Energy Bazaar — uma plataforma baseada em IA e blockchain para troca de energia peer-to-peer em sistemas energéticos locais. A ideia era um sistema de gestão de rede energética local bottom-up, descentralizado e autoequilibrado para uso rural. Usamos um framework de inovação responsável para guiar nosso design e parcerias.

Era tecnicamente empolgante e conceitualmente à frente do seu tempo. Mas o business case econômico ainda não existia. O ambiente regulatório, os custos de hardware, a maturidade do mercado — tudo apontava para a mesma conclusão: o mundo não estava pronto. Foi uma lição dura sobre a diferença entre uma boa ideia e um negócio viável.

A Prefeitura de Haia — Seis Anos de Inovação Pública

Depois da Energy Bazaar, fiz trabalho independente para o setor não-governamental e público antes de assumir uma posição em tempo integral na Prefeitura de Haia. O que começou como um papel de consultor de inovação para o CIO expandiu ao longo de seis anos para liderar energia inteligente, liderar identidade digital, e atuar como consultor sênior de inovação para a equipe de inovação digital.

Esses anos foram formativos. Construí uma rede elétrica inteligente. Organizei competições de inovação. Experimentei com identidades digitais e projetei uma solução de rastreamento de COVID. Trabalhei em visão e estratégia para digitalização e energia. E orientei mais de 50 estudantes, estagiários e trainees — aprendendo tanto com eles quanto eles comigo.

Resumi meus seis anos de inovações digitais na Prefeitura de Haia em um artigo separado, caso você tenha curiosidade sobre os detalhes.

Brasil — Uma Segunda Casa

Durante um ano de formação em Biomimicry e Theory U no Spinwaves Lab, aprofundei minha compreensão de como a natureza projeta soluções e como podemos aprender com seus padrões. Já tinha morado na Espanha durante os anos escolares, mas foi o Brasil que realmente me conquistou.

Casei com uma brasileira, e nossa vida juntos me trouxe a São Paulo. O Brasil — com sua imensa biodiversidade, a Amazônia, a Mata Atlântica, e suas cidades vibrantes e complexas — se tornou uma segunda casa e uma fonte inesgotável de inspiração.

Iracambi — Onde a Natureza Se Tornou a Missão

Em 2022, fui voluntário na Iracambi, uma ONG que trabalha com conservação e restauração florestal na Mata Atlântica — um bioma reduzido a aproximadamente 10% de seu tamanho original. Projetei um experimento para testar a viabilidade da bioacu´stica para monitoramento de biodiversidade, instalei sensores em diferentes tipos de paisagem, analisei dados para identificação de aves, e consegui um financiamento para equipamentos profissionais de monitoramento sonoro.

Mais tarde, em 2024, retornei para o programa Smart Forest — escrevendo uma proposta para um corredor verde combinando agrofloresta e turismo verde, projetando um processo de escrita de propostas assistido por IA, e desenvolvendo visão e estratégia para Smart Forests.

Essa experiência foi o catalisador. Mostrou-me que os temas que me importavam — energia, cidades, tecnologia, sistemas — eram incompletos sem a natureza. Regeneração não é apenas sobre sistemas humanos; é sobre todos os sistemas vivos.

Regen Studio — Além da Sustentabilidade

Quando fundei a Regen Studio em 2022, já havia chegado a uma convicção: sustentabilidade sozinha não é mais suficiente. Já ultrapassamos limites planetários que estão nos empurrando em direção a pontos de não retorno. O que precisamos não é meramente sustentar o estado atual — precisamos regenerar. Reconstruir o que foi perdido. Restaurar a capacidade dos ecossistemas naturais, humanos e urbanos de prosperar.

O primeiro cliente da Regen Studio foi a Dutch Blockchain Coalition, onde primeiro liderei o tema energia & sustentabilidade — coordenando parceiros da coalizão, projetando projetos em torno de créditos de carbono tokenizados, publicando conhecimento sobre cadeias de suprimentos sustentáveis e finanças regenerativas — e depois me tornei líder de Passaportes Digitais de Produto, construindo coalizões intersetoriais para se preparar para novas regulamentações da UE.

O estúdio agora trabalha em cinco temas: Transição Energética, Economia Circular, Cidades Habitáveis, Sociedade Digital e Natureza Resiliente. Cada um representa uma peça do quebra-cabeça que venho montando ao longo de toda a minha carreira.

A Missão de um Pai

Recentemente, me tornei pai. E embora eu sempre tenha me preocupado seriamente com a forma como nossa espécie trata uns aos outros e nosso planeta, essa preocupação ganhou uma qualidade diferente. Não é mais abstrata. Tem um rosto, mãos pequenas, e um futuro que depende do que fazemos agora.

É por isso que faço o que faço. Não porque é uma carreira — mas porque é uma responsabilidade. Projetar inovações que não apenas resolvem problemas, mas regeneram os sistemas que tocam. Para minha filha, e para todas as crianças que merecem um mundo que funcione.